Em algum momento da história mais remota de nossa espécie, seguimos um caminho produtor de culturas baseadas, em maior ou menor grau, no modelo constituído por uma minoria da população exercendo a posse e o domínio através do poder coersitivo e uma maioria resistente se submete ao poder da minoria.
O homem perde sua autonomia quando sucumbe ao medo imposto pela força.
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Torna-se parte de um encadeamento relacional verticalizado que reduz a amplitude das possibilidades de ser e de agir. No alto desta cadeia está quem manda e escalonadamente abaixo quem é mandado. A maioria se encontra assim encadeada e imagina que o mundo é, de fato, como lhe demonstra sua condição de estreiteza.
Fica internamente empobrecido, por não exercer seu potencial humano, retirado pela voracidade insaciável e pela força do outro.
O autoritarismo, a intolerância, a crueldade são irmãos da inveja, e esses sentimentos mobilizados em cadeia geram relações perversas em que um suscita no outro os mesmos
sentimentos e atitudes destrutivas e se perpetuam lastreados pelas polarizações bom/mau, certo/errado - modo primitivo no desenvolvimento psicológico. Tal sistema relacional se pauta no enganar, na mentira, em pequenas transgressões em que um aniquila a mente do outro e o transforma numa espécie de objeto necessário para o uso sem amor, destituindo-o de personalidade e de vontade própria. Consequentemente o
torna inexistente como indivíduo pensante, mas com uso tático na cadeia verticalizada.
O poder muito se utiliza das vontades dos que a ele estão submetidos. Por exemplo, a atual ênfase no consumo nos atrela à esperança de não haver proibição, de não haver frustração das vontades e necessidades. É tática ilusória usada como canto da sereia,
portanto controlador, para a manutenção ilusória de que todos precisam ter e acumular para sentir que existem e o poder assim exercido enriquece a minoria e exacerba ressentimentos.
O que move esse sistema é a vontade do poder puro e simples e existem pessoas que têm os atributos naturais para exercê-lo. É fácil identificar quando alguém tem esses atributos. Tal pessoa desqualifica tudo o que não é si mesmo. Desmonta qualquer ação criativa, a não ser que lhe convenha, e os sentimentos de ódio e inveja são claramente perceptíveis em ações de crueldade.
O poder exercido desta forma perversa se apresenta travestido de educação para disfarçar a hipocrisia e se torna tão frequentemente usada nas relações em geral que acaba por fazer parte da identidade social. A existência própria fica submetida aos modos de parecer ser e de como se fosse, ambos encobridores da verdade, ambos à serviço do falseamento e do não poder existir sendo o que se é.
No cotidiano, as ações cruéis nem sempre são de fácil identificação pela pessoa que as pratica. Se apresentam como um desconforto difuso e indicador de haver conflito entre a consciência ética e a realidade de seus atos. Sob esta perspectiva há aqueles que sofrem pela culpa de não conseguir suportar a dor imputada pelo descobrimento da violênci em si próprio e, para evitar a dor causada por essa verdade, mantém o cruel em si mesmo e o alimenta noutros promovendo a continuidade da relação verticalizada. Por outro lado, aquele que lida consigo próprio enfrentando e sofrendo a dor narcísica provinda do se enxergar capaz de ser cruel fica livre para criar, para pensar, para existir sendo como é.
Consequentemente ele desmontará a cadeia vertical pela simples razão de não haver nesse modelo de relação o princípio da coesão, mas apenas o encadeamento coercitivo. E, se um encadeado sai, a estrutura toda se queda. Quem consegue se desvencilhar dessa espécie de cabresto se destaca e é elevado à categoria do extraordinário sofrendo os riscos de ser adorado ou morto, conforme a ameaça representada ao sistema. No final das contas, de uma maneira ou de outra, estará fadado a não poder existir como é. Há muitos exemplos históricos e só para lembrar alguns: Sócrates, Jesus, e qualquer um que tentou, ou que venha a tentar pensar e agir fora do estabelecido.
Fica então a idéia de que humanidade segue pelo caminho do domínio de seus pares, sob a primazia da civilidade coercitiva. Não é possível dizer se seríamos capazes de sustentar a civilização de algum outro modo que não esse, já que nossas características tendem a ela, mas a experiência nos mostra que, caso sejamos capazes, por certo precisaremos reverter esse modelo de civilização com dose maciça de esforço pela prevalência da generosidade sobre a destrutividade. Há também os poderosos que buscam o poder pela coesão. Pelo uso consciencioso e responsável e, além disso, cada ser humano é dotado da capacidade plástica de assumir atitudes e funções que normalmente imagina não fazer parte do seu repertório. Graças a essas características é possível verificar períodos de alternância na condução dos líderes.
Hoje, talvez mais do que em qualquer outro momento da história da civilização como a conhecemos, precisamos nos perguntar: O quanto de esforço estamos dispostos a fazer para manter esse modelo verticalizado? Seria necessário buscar outros caminhos para a convivência humana? Haveria possibilidade de desenvolvimento humano para encontrar outros caminhos?
Apesar de o momento solicitar gravemente mudanças na estrutura civilizada, continuamos caminhando sem outra referência possível que nos livre da auto extinção. A possibilidade de evolução psicológica para que se possa abrir mão das satisfações reais e fantasiadas, me parece remota. Como se diz popularmente, ninguém quer largar o osso. Há imensa dificuldade em deixar para trás ganhos obtidos em detrimento da busca por caminhos não trilhados, de vivências ainda inexistentes. A nossa mente é laboratório de pesquisa e é da observação da vida e elaboração das experiências através do ato de pensar que surgem as ações e a esperança de transformação está na superação individual e coletiva das tendências violentas e cruéis.
O cuidado amoroso com a infância aliado ao desenvolvimento de atividades construtivas e criadoras ensinadas através das ações - não das palavras - serão as reais riquezas com as quais as gerações contarão para lidar com os sentimentos de ódio e inveja ao longo da vida. Já em relação à parcela de pessoas, cujas tendências naturais comportam uma destrutividade e violência predominantes, deve-se pensar seriamente qual função tiveram na sociedade primeva e qual deverá ter na atualidade e no futuro. Mas para dar andamento a transformações dessa magnitude precisaremos nos despir dos preconceitos amalgamados pela onipotência e soberba e nos aproximar do que de fato somos.
Publicado pela APHLA, Academia Portocalvesnse de História, Literatura e Artes, out/2015.
