A vida é um devir. O tempo seria a memória do espaço.
Tudo flui, tudo gira tudo se movimenta.
Quando se briga com a dimensão tempo, feito o Chapeleiro Maluco, fica-se preso repetindo a memória. Não flui, não segue em direção ao vir a ser, apenas repete.
Algumas vezes o termo ciência é usado da mesma forma como a Geni da famosa música de Chico Buarque. Considerada moralmente inaceitável pela população, Geni salva a todos de uma catástrofe exatamente através da característica sexual pela qual a hostilizam. A "Maldita Geni!" e a "Bendita Geni!" são a mesma. A alternância no clamor tem como critério a conveniência.
A Ciência não é verdade, nem inverdade. É estado de mente que recebe e busca compreender aquilo que costumamos chamar realidade. Para exercê-la é preciso método, desprendimento e capacidade de não saber para descobrir. Na psicanálise não é diferente. O que a alguns faz temer e às vezes negar a identidade científica da psicanálise não é sua natureza em si, mas a forte tendência à sacralização tão presente no humano, ou a saturação do uso da palavra ciência.
Disse Freud que o inconsciente já era conhecido pelos poetas e filósofos, mas coube a ele próprio descobrir um método científico de estudá-lo. E o fez na dimensão psíquica, a qual a metodologia científica instituída não comportava. Considero essa criação o coeficiente da genialidade de Freud. Na prática ele tornou o inconsciente o objeto de estudo à luz da pesquisa funcional. Passou da explicação filosófica à compreensão sistêmica. Passou do por que? ao para que? Usando a observação e a escuta como técnica.
Observar e escutar metodologicamente não significa que a ciência comprova a verdade da concretude indiscutível dos achados clínicos, ao contrário, significa a compreensão de que é apenas uma das maneiras para se aproximar de algo a discernir e interpretar, através de indícios e evidências da existência em constante transformação.
Historicamente grande parte daqueles que trouxeram à luz conhecimentos sólidos correram por fora das instituições científicas que, no cuidado de se auto protegerem acabam sacrificando a liberdade científica. Freud precisou correr por fora dos centros de pesquisas para criar. Suas idéias eram tão mal vistas quanto a Geni e da mesma maneira foi tratado.
A psicanálise, que estuda o inconsciente a partir de um método, cuja a lógica foi considerada diferente, e já não é mais, trouxe à tona a questão sobre se existe a real necessidade do conceito de paradoxo, ou se o paradoxo seria o nó que não se sabe desatar.
Na sequência tratarei sobre o vínculo entre a filogenia e a ontogenia biológicas propostas por Lamarck e filogenia e a ontogenia anímicas na teoria das pulsões em intersecção de complexa ligação. Por isso importa lembrar que Lamarck em 1809 concluiu, a partir de seus experimentos com linhagens sucessivas de vermes, haver semelhanças fundamentais entre o desenvolvimento do organismo e a mudança evolutiva das espécies no sentido progressivo e ativo de movimentação intencional para viver.
(http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-80232007000100006).
Esclareço não se tratar de simples biologização da Psicanálise, mas ao contrário reivindica o encontro com os elementos, estruturas e funções psíquicas formadores da poção no caldeirão da Bruxa metapsicologia e ela não se confunde com as importantes teorias que suscita e incluiu no seu caldeirão. Ela é o elemento da incerteza, indomável, fluida, volátil, a alma que alimenta o método e sem ela corremos o risco de usar a interpretação com aquela sem a qual não se dá um passo à frente, como se referiu Freud (1937). A metapsicologia faz frente à palavra como objeto investido libidinalmente, à palavra fetiche substituta do dispor-se ao desconhecido conhecendo-o, ao menos o que dele for possível vislumbrar. A dura Tarefa a qual o psicanalista se propõem, contudo necessária para reavivar constantemente a função analítica, instrumento de ofício.
A pulsão surgiu como modelo teórico sustentando a idéia de intersecção entre o psíquico e o somático. Suas demandas manifestas em afeto e representação ocorrem desde o momento em que é possível identificar o início da vida. Primeiro a existência uno como esparmatozóide e como óvulo e depois dualmente na fusão dos gametas que se tornam uno em zigoto.
Freud usou o mito dos andróides narrado no livro O Banquete, de Platão, como modelo psíquico da catástrofe primária, quando os organismos primevos tiveram que se transformar e se especializar para sobreviver. Foi necessário criar um oceano interno mínimo particular preservando a ambientação primeva num oceano reproduzido no corpo materno durante o desenvolvimento embrionário. Ferenczi desenvolveu essa linha de pensamento no trabalho entitulado Thalassa, Ensaio sobre a teoria da genitalidade com muita propriedade se comparado aos conhecimentos atuais. Veja em Niel Shaubin: (https://www.youtube.com/watch?v=K-BUOgovCro ).
Com o passar do tempo a teoria de Lamarck se confirmou pelas descobertas epigenéticas e nos é possível rever em Freud e Ferenczi a hipótese. As transformações promovidas pelos reguladores epigênicos não eram conhecidos, mas foram por eles observados e utilizaram desse conhecimento, cada qual com seu vértice e conclusão.
A psicanálise descortinou a forma como o ambiente interno e externo é representável na heranças psíquicas individual e coletiva.
Mas a "bruxa metapsicologia", como se referia Freud, não era a única bruxa no início do século XX. Havia outra com caldeirão fervente, a física moderna. Em 1900 o físico Max Plank publicou o trabalho que mais tarde seria conhecido como A Lei de Planck da radiação e foi a base para Einstein desenvolver seus estudos e cunhasse o termo partículas quânticas, tendo o quanta como unidade básica.
Décadas depois Bion fez referência ao princípio da incerteza postulado em 1927 por Heisenberg, ganhador do Prêmio Nobel em 1932 pela criação da mecânica quântica. Para auxiliar na compreensão do interesse de Bion sobre o tema, tentarei uma resumida explanação. Heisenberg demostrou a impossibilidade de definir em que lugar se encontra um determinado elétron, pois ao definir a sua posição não é possível encontrar o seu momento e vice-versa. Difere substancialmente da característica do modelo atômico de Bohr, em que o elétron orbita o núcleo como um planeta orbita o sol. No modelo orbital de Heisenberg o elétron não estará se movendo como órbita planetária, mas num espaço como nuvem dentro do orbital. Em consequência disso a sua posição será sempre de valor probabilístico.
O revolucionário nesse conceito é que a incerteza da localização do elétron é a fonte de determinação da sua posição. Em psicanálise a incerteza é fato fundamental e essa característica fez criar as técnicas utilizadas. Uma delas diz respeito às invariâncias mencionadas por W. Bion (1965). Num exercício analógico penso que as invariâncias estão para a escuta no setting, assim como o elétron está no orbital de Heisenberg.
(https://www.youtube.com/watch?v=OLc_v5-sQeM ).
Já o experimento mental conhecido como O Gato de Schrödinger, me proporcionou pensar sobre o funcionamento psíquico como ponto da intersecção pulsional e farei uma troca gentil de ingredientes entre as duas bruxas que no fundo sabem sobre a unidade matricial entre os ingredientes dos dois caldeirões.
Schödinguer criou o experimento mental para propor uma discussão nos primórdios da formulação da mecânica quântica. Penso que ele foi muito feliz na forma de ilustrar. Uma das conclusões do experimento é que um dos estados possíveis de existência do gato é a superposição e parece indicar que a realidade só decide o que está acontecendo quando ela é observada.
Referencio um link onde um físico explica o experimento para leigos com muita propriedade.
(https://www.youtube.com/watch?v=pKEq8d_1pn4).
Atualmente os super aceleradores de partículas ampliam os estudos e, ao que parece, um físico suíço chamado Nassim Haramein encontrou a fórmula matemática que Einstein tanto buscou para a unificação das duas teorias da física que tratam do macrocosmo e do universo subatômico.
A parte do significado subjacente desse achado incrível e que interessa mencionar neste artigo considera a partícula de Planck como matéria de base. Para Haramein é o espaço que define a matéria e não o contrário e a função do "pixel" de Planck no nível subatômico é a mesma dos buracos negros no macrocosmo e neles os objetos, mesmo que se fragmentem, se mantém, pois que a matéria não pode ser criada e depois destruída. Cada fragmento trás em si a forma da imagem inteira. Não é o objeto real, mas a sua representação. Percebo a imensa redução do enunciado feito por mim, mas deixo o link para quem quiser consultar sobre as pesquisas com mais profundidade:
https://resonancescience.org/news/research-publications/
Apimentando a conversa...
“ O espaço parece ser a projeção da extensão do aparelho psíquico. O misticismo é a auto percepção obscura do que existe fora do Eu, do Id.”. Freud, 1938.
A superposição e os fractais na física podem ser juntos o ingrediente pimenta de sua poção. O ingrediente pulsão pode ser a pimenta do caldeirão psicanalítico, um dos elementos mais estranhos, mais míticos da psicanálise e paradoxalmente um dos mais coerentes. Mas as pimentas nos caldeirões destas duas bruxas são as mesmas.
Assim como cada pedaço de matéria trás em si a representação do real, cada fragmento psíquico trás a representação da experiência emocional real para o registro no nível de fato psíquico para que possa ser usado.
As ciências físicas, ou naturais e a ciência do inconsciente, ou psicanálise, não são distantes, mas auto complementares sob o olhar sistêmico. Os tipos de linguagem numérica na física e a alfabética na psicanálise não são segmentações entre elas e sim instrumentos em expressão e de notação.
Considero importante repensar estes aspectos, pois que o conhecimento aumenta nossa responsabilidade sobre nós mesmos e sobre o que podemos fazer conosco e com o nosso derredor.
