Ukiyo-e



Ukiyo-e

        Ukiyo-e é um termo da língua japonesa que pode ser traduzido como O mundo que passa. Esse termo se refere a uma condição de tristeza diante da efemeridade e transitoriedade do mundo. A tristeza antecipatória pela constatação da própria finitude e pelo conhecimento de que o sistema do qual participamos está em constante movimentação e sem controle possível das forças naturais.
        Os japoneses convivem, a milhares de anos, com terremotos e tsunamis. Ao longo do tempo tiveram a oportunidade de constatar a vulnerabilidade e a fragilidade diante da natureza. Da experiência vivida criaram tecnologias para lidar com as intempéries. Por isso muitas vidas foram salvas nesses últimos dias.
        É impressionante para nós brasileiros a competência cidadã mostrada pelos japoneses nas imensas filas em frente aos supermercados, postos de combustíveis. Aqui, possivelmente agiríamos desregradamente ao estilo salve-se quem puder. O que seria de nós brasileiros caso nos deparássemos com uma catástrofe natural, ou uma guerra de grandes proporções? Aliás, não é necessário ser muito imaginativo. Parte das catástrofes brasileiras são anunciadas, mas considero que nossa maior catástrofe é o esgarçamento dos valores éticos e de civilidade, importantes para a convivência social e enriquecimento da existência humana de geração a geração.
        A transitoriedade é fato. Nós passaremos, o mundo passará. Não há constância nem permanência do que quer que seja. Será que o que nos faz negar a efemeridade do mundo é nossa incapacidade de vivenciar a tristeza imputada pela realidade do mundo que passa (Ukiyo-e)? Parece que é dessa incapacidade que sofremos. O sentimento natural e salutar de tristeza tornou-se politicamente incorreto. A busca incessante pelo prazer em consumir seja lá o que for, subtrai a energia e o tempo de pensar e viver as coisas que são básicas para a vida e promotoras de real bem estar e alegria, e assim, o conhecimento de que o mundo passa é negado. 

Ser capazes de nos identificar com a dor alheia nos torna parte de um todo. De outro modo o individualismo se sobrepõem ao coletivo.

Yesmin Sarkis


Escrito para um pequeno periódico comunitário, após o último grande terremoto no Japão. 

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