O que é o virtual? *
Nesse
artigo associativo proponho reflexão sobre o tema virtualidade.
Vejo na forma
digital de comunicação do virtual alcançada, a WEB, o retomado de um
espaço/tempo mais relativizado em que as fronteiras entre os países começam a
perder relevância e a atual cultura se vê diante das mudanças extraordinárias
que forçam o pensar e a reconstrução de saberes.
Trabalho com a hipótese de que a
virtualidade digital é membro artificial extensivo da condição virtual inata. É
veículo tecnológico de comunicar o mundo interno, com lastro forte o suficiente
para provocar mudanças paradigmáticas. O filosofo Pierre Levy, em seu livro O que é o virtual, propôs que a atual
etapa de virtualização faz parte de um processo de hominização continuada. Estabelece
a primeira etapa pela invenção da linguagem como espaço virtual e a etapa atual
como uma mutação contemporânea, como retomada daquele momento de autocriação da
humanidade através da linguagem.
Stephen
Hawking escreveu em O universo em uma casca
de noz, que um momento importante do avanço tecnológico ocorreu com a
aquisição da escrita acelerando como nunca, até então, a capacidade de
transmitir informações ao considerar a rapidez e a quantidade no tempo atual e
para as gerações vindouras. Em minhas considerações a atual etapa tecnológica não
é propriamente uma mutação contemporânea como propôs Levy. Não considero que
haja um processo de hominização e que o avanço tecnológico represente, então,
uma evolução humana. Considero a virtualidade fenômeno inato, enquanto a
virtualidade digital é o membro
extensivo para o alcance ampliado do que já é condição humana. É órgão
concretizado, expansivo, criado pela necessidade de expressar da maneira mais
eficiente possível a existência do dentro de si, e assim delimitar para o
outro, (o de fora) a existência do individual (se é que o conceito in-diviso se fundamenta na realidade, ou
se uma espécie de voo de Ícaro das ilusões com as quais concebemos e pautamos a
existência). Ação com manifestações individuais pautadas na diferença das
experiências de cada ser existente. Talvez a necessidade civilizada, ou mesmo a
bipolaridade das duas categorias pulsionais narcisismo/social-ismo, como
colocado por Bion, o conflito vivo em individuar-se ou unir-se em busca de pertencimento
natural como forma de integração com
a vida, ou também a necessidade pulsional epistemofílica de compreender (saber-se)
e ser compreendido (ser-sabido).
No
momento estamos como Édipo, na encruzilhada, pensando ter escolha sobre o caminho
a seguir, quando na verdade o caminho a ele já estava destinado. Não creio na
invenção do novo, mesmo a tecnologia é desenvolvimento do já pensado e sempre a
espera de materiais que dêem conta delas para transformá-las em realidade
usável. Nossos haveres se encontram todos aí, e isso não quer dizer destino,
mas potencial. Portanto o que no momento me ocupa na clínica é o movimento dinâmico da vida em
detrimento do desenvolvimento da vida
no atendimento ao analisando. Mudança
do vértice conceitual é sempre instigante. Como muitos outros analistas, partilho
da ideia de que tudo que precisamos se encontra disponível, mas aqui citarei
Abraham em A teoria da libido :
“Eu lanço mão de uma premonição (hunch) de
que podem existir pensamentos sem pensador, podem existir “atos” sem agente.
Existem pensamentos que têm sido atuados sem um agente para atuá-los. Pode
haver pensamentos e atos que se relacionam uns com os outros sem que nenhum
pensador ou agente os relacione. Assim, um ato canibalístico, que não tenha
sido nem concebido nem atuado, pode esperar a chegada do criador e agente. Se
for realmente o caso de ter existido um assassino em particular, ele pode ser
encarado como uma realização que se aproxima da teoria ou conceito de uma
personalidade que tanto concebe como transforma tal impulso em pensamento ou
ação. Ou ambos. Entretanto, o “assassino” “factual” pode ser uma racionalização
– um produto da razão que tem por função ser escrava das emoções, como postulou
Hume”.
O ambiente analítico é campo complexo de
fenômenos e espaço possibilitador da vida em sua dinamicidade. Proporciona a
experiência virtual do já vivido no revivendo
com o analista, e a dupla, por vezes, é acompanhada pelo medo da mente como ela
é – e que aqui suponho e exercito como o incognoscível (Bion) – aliado à paixão
pelo desconhecido (narciso desconhecia que sua paixão era dirigida ao seu
próprio reflexo). A relação do medo da mente com a paixão resulta em temores insurgentes,
como Guardiões do narcisismo, dificultando a tarefa de deixar de lado a contemplação
no espelho d’água na lagoa da paixão e impedindo a diversidade e
multidimensionalidade de possíveis viveres ao redor.
Balouçados pelo medo das
consequências advindas do enxergar as coisas como de fato são, corre-se o risco
de hominizar tudo, inclusive a si mesmo. A característica das realizações no
espaço analítico dependerá do quanto o analista pode expandir e estender sua
continência para além das teorias, mesmo fazendo uso delas, afinal o que
pretendemos evolução ou desenvolvimento pode ser apenas pretensão.
Espero que
minhas associações suscitem tantas outras quanto possível, caso alguém julgue
útil.
