Ensaio em que a autora examina, sob a ótica do método psicanalítico, parâmetros possíveis
relacionados com as novas formas de comunicação viabilizadas pela internet, por entender que esta comporta mais virtualidade na comunicação do que a prensa de
Gutenberg, e altera os até então habituais
modos de relações.
Também
ensaia alcançar alguma sistematização das experiências em atendimento via
Internet.
Introdução
Que
a psicanálise não se adequa às distâncias, é ponto pacífico. Não é necessário
falar do já construído, consagrado e usual no cotidiano da prática clínica.
Contudo, as últimas décadas imprimiram mudanças em vários níveis da comunicação,
e consequentemente do conviver, cabendo ao psicanalista estudar as relações do
inconsciente com as ferramentas de contato virtual, inclusive verificar se a
internet será ou não fonte de ampliação e reformulação de técnicas aplicadas no
método psicanalítico.
Por
mais que a tecnologia avance, a natureza humana permanece a mesma sob o manto
do verniz cultural/civilizatório. Em algum momento da nossa história, a
civilização tomou o caminho que trilhamos ao longo do tempo. Mas hoje, o mundo
como sistema vivo, está mudando drasticamente auxiliado e ameaçado pelas ações
humanas. São ações tão arraigadas que mesmo diante das ameaças à sobrevivência,
relutam em ceder ao pensar realístico e transformador. Sem mudanças no pensar
sobre nós mesmos e sobre o conceito de vida, o verniz civilizatório, já
trincado, esfacelará. Seja como for esse verniz já não nos serve mais.
O
nível de comunicação em rede é uma sofisticação e evolução da espécie e como
tal deverá ser aproveitada. Tal comunicação não é privilégio humano. Outros
seres - observe por exemplo os vegetais - já o desenvolveram há muito mais tempo. https://youtu.be/96lKBGgFnzM .
E
é com o olhar sobre o presente e o futuro que ensaio algumas ideias retiradas
da experiência clínica e com base na metapsicologia, esta última, aliás, bem consolidada
em seus fundamentos.
Internet, o membro
extensivo do mundo interno
A
velocidade e o formato com que ocorrem as comunicações desde a implantação da
internet transformam, dia-a-dia, a relação do homem com a geopolítica fazendo
com que as fronteiras físicas não sejam mais as únicas. As fronteiras virtuais
- aqui a palavra virtual no sentido de uso comum e não no significado que
atribuo no pensar analítico – estão universalizando as relações e fazendo com
que o tempo e o espaço sejam vividos de maneira mais relativizada e portanto
mais próximo da atemporalidade do inconsciente.
A
virtualidade internáutica, assim como o sonho, provoca sentimentos de
incompreensão do fantástico e estranhamentos. O que é oculto tende a cismar, o
que se faz após a cisma decorre do modo como lidamos com ela. Em 1933 Freud refere-se
ao caráter provisório do ocultismo, quando diz que não há o que temer, afinal
tudo faz parte da natureza, mesmo quando nos parece sobrenatural. [i]
O método psicanalítico e as
possibilidades
Em
psicanálise o rigor deve ser do método e não do analista.
O
método Psicanálise decompõe o composto psíquico separando, discriminando e
identificando os elementos aglutinados, conscientemente irreconhecíveis e realizadores de atos
psíquicos inconscientes. As técnicas utilizadas em psicanálise são originadas desse
enquadre metodológico, acima do livre pensar do analista, mas utilizando o
livre pensar como substrato à pesquisa.
A
eficiência investigativa da psicanálise mantém a metapsicologia viva e em
desenvolvimento, ou seja, é capaz de aprofundar seus conceitos ao se deparar
com situações que assim o exijam. Portanto, parafraseando Freud no trabalho acima
citado: “não há o que temer”. Há o que pesquisar.
Neste sentido venho pesquisando, mesmo que timidamente, as
potencialidades da internet de uma maneira geral e na especificidade do fazer
clínico. Levantei em 2013 a hipótese[ii] de que a virtualidade não
é algo novo como em geral pensa o senso comum, ao contrário, ela é inerente ao
mundo interno, é condição inata. No
trabalho intitulado “O que é o virtual?”,(http://yesminsarkis.blogspot.com.br/p/o-que-e-o-virtual_19.html?m=0)
proponho: “Trabalho com a hipótese de que a virtualidade
digital é membro artificial extensivo da condição virtual inata. É veículo
tecnológico de comunicar o mundo interno, com lastro forte o suficiente para
provocar mudanças paradigmáticas”.
Sobre o virtual na técnica
A evolução psicológica, ao menos alguma possível ao ser humano e
sobre a qual pouco sabemos, passa pelas ligações possíveis dos elementos
componentes da vida psíquica, no sentido de com-junção. Os analistas conhecem
bem e todo o tempo lidam com as forças disjuntoras e dissociativas que, por
sua vez, são motivos para alertar sobre a importância da pesquisa metodológica,
ao invés da racionalização disfarçada de epistemologia. O interesse
científico do analista empenha no sentido de compilar dados das
rápidas evoluções buscando possíveis proposições técnicas.
A
resistência aos artefatos tecnológicos já foi maior no meio psicanalítico. É
natural que seja assim. O psicanalista sempre teve razões para proteger a si e
à psicanálise dos ataques da incompreensão e da negação, o que torna os
cuidados imprescindíveis. Contudo, os receios que possam surgir não devem
obscurecer nem retirar a capacidade do uso analítico, a oportunidade ímpar de desenvolver
e expandir, ou não, a técnica na comunicação individual proporcionada pela
internet, o pleno exercício da função analítica.
Ao
longo dos mais de 100 anos de existência a psicanálise possibilitou a criação
de vertentes psicoterápicas pautadas na metapsicologia e elas seguem,
independentes e estruturadas com suas técnicas próprias, como por exemplo a
Psicoterapia breve e a terapia (psicanálise?) familiar, dentre outras.
Penso
que o veículo internet suscitará técnicas psicoterapicas com base
psicanalítica. Digo isso em face de algumas experiências em que promovi
supervisão e atendimento clínico circunstanciais. Também considerando o artigo Skype análise de Plínio Montagna[iii],
(2015), onde ele não só discute o tema do atendimento analítico via internet,
como contribui com aspectos da técnica utilizada nas ocasiões em que procedeu atendimentos
dessa natureza, trazendo também informações sobre os posicionamentos da
International Psycoanalytical Association sobre o tema.
Algumas
das minhas observações e conclusões iniciais foram coincidentes com o trabalho
desenvolvido por Montagna no que diz respeito:
- · a remeter ao conceito de espaço transicional de Winnicott, no sentido do lúdico;
- · a possibilidade do uso excepcional da internet para o contato clínico fora do consultório com analisandos e supervisionandos;
- · a análise via internet não ter que ser denominada psicanálise, mas poderá vir a ser uma modalidade de psicoterapia como é por exemplo, ao meu ver, a psicoterapia breve;
- · sentimentos experimentados pelo analista quando ultrapassa o ponto normativo com as consequências de tal ousadia.
Esses
pontos comuns ajudam a balizar referenciais de pesquisas, posto que
surgiram independente e sem conhecimento prévio dos trabalhos dos
autores entre si, como comumente ocorre
em situações onde as ideias vão se compondo diante das experiências similares e,
na convergência delas mesmas, no ideário de um grupo como composição síntese,
compilação.
Tal
ocorrência me remete ao tempo em que, mais do que o ineditismo do tema, o que prevalecia era a
característica individual no trato das ideias. Assim procederam os grandes como
Shakspeare, Goethe, Van Gogh, Cervantes dentre tantos outros. E a própria
psicanálise trabalha com a hipótese dos pensamentos estão sempre em busca de
quem os possa pensar. (Pesquise em K. Abrahan e W. Bion).
Minhas
observações são restritas e contingenciadas num momento que considerei
pertinente a utilização do atendimento à distância, cujo termo Skipe análise cunhado por Plínio
Montagna passarei a usar.
As circunstâncias
Eu já havia proporcionado supervisão a um psicólogo que fazia atendimento ao seu paciente através da internet e, por força das circunstâncias, passou a residir na Europa. A psicologia já adotava, então, a prática de atendimento em algumas circunstâncias, o que deu força a decisão de fazê-los quando precisei.
Algumas considerações:
- · O sítio analítico (setting): O sítio físico habitual, foi substituído por dois outros sendo um deles o local onde estava a analista que neste caso se encontrava em outra cidade, e o outro sítio a residência do analisando. Os dois sítios físicos distantes foram juntados - formatados - num ambiente único de proximidade virtual.
- · Haverá que se considerar variáveis externas como por exemplo a entrada do analista na casa do analisando acarretando o afetamento dos outros moradores, mesmo não estando no recinto reservado ao contato clínico. Considero esse um ponto relevante a ser considerado em pesquisas.
- · Observei a preservação das manifestações de atenção flutuante, da transferencia/contratransferencia e da associação livre.
- · O pressuposto de que o virtual é inerente ao mundo interno abre a perspectiva de inserção da virtualidade como ampliação da forma de comunicar o mundo interno.
- · A disposição das partes para ousar a novidade possibilitou criar o espaço lúdico na situação.
- · O tempo de análise, anterior ao período da Skipe análise, dos analisandos participantes variou entre 02 a 05 anos.
- Houve melhora na qualidade do vínculo analítico após os atendimentos em Skipe análise.
Imagem bibliográfica
[i] Freud, S. Novas Conferências Introdutórias. http://tramontin.com02.googlepages.com/Vol22Novasconferenciasintrodutoriassobrepsicanaliseeoutrostrabalhos.rtf
[ii] Sarkis, Y O que é o virtual. http://yesminsarkis.blogspot.com.br/p/o-que-e-o-virtual_19.html - Originalmente publicada no Jornal
Associação Livre da Sociedade de Psicanálise de Brasília, mas, disponível no
blog.
[iii] Montagna, P. Skype análise. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 49, n.1, p.
121-135. 2015.
