Na arquitetura e nas palavras

            Nada entendo de literatura e poesia, mas estou sempre em busca de entender-lhes os sentimentos. Considero os escritores aqueles que ousam mergulhar na vida e relatar o que nela experimentam. Cada qual com sua experiência emocional, ao seu estilo. Chamou-me a atenção o mergulho e o estilo do poeta Xavier Placer (1916/2008). Poeta, prosador e poeta-em-prosador. Escritor de extensa obra literária e dispensa maiores apresentações formais**. Já as fez muito bem José Jeronymo Rivera***, anteriormente. Abro aqui apenas pequenina fresta para a sua obra. Pequena parte que posso alcançar sem maiores pretensões, mas usufruindo dela.
            Também não entendo de arquitetura, mas cresci com Brasília, e entre minhas longínquas e esfumadas histórias recordo construções impressionantes.
A arquitetura de Brasília, certamente, delineou minha alma. Trago em mim a marca modernista da arquitetura de Niemeyer e Lúcio Costa. Arte de caráter inovador, por ser fruto de mudança paradigmática em seu significado mais próprio: leveza, estética e estrutura, em unidade indissolúvel.
            Foi assim que meu olhar se encantou com as construções literárias de Xavier Placer. Vejo nelas a leveza, bela e de forte impacto, cuja estrutura impressiona.
            Como não se emocionar, por exemplo, com a delicada construção amorosa em “Pássaro surpresa”:
        Um pássaro, talvez foragido de doméstico viveiro,
                 ganhou a praia na clara manhã.
                 Na clara manhã, na praia, aqueles que levantavam        
        castelos na areia e os que liam jornais á sombra das
        barracas e os voluptuosos da ardência perderam o es-
        petáculo.
                  Súbito, todos os que patinhavam na escassa margem
        de água até onde dá pé, foram candidatos à posse do
        pássaro aloucado, que ziguezagueou sobre cabeça e bra-
        ços num vôo rasante...
                   E veio.
                   E veio cair.
                   E veio cair nas mãos de um namorado, que o entre-
                   gou sorrindo à namorada, de olhos espantadíssimos.
                                                                    (Silêncio Adentro, 1961)

Poemas em prosa e verso de pura delicadeza. Leve como as colunas de losangos alongados que sustentam o Palácio da Alvorada. A forma, também tomada como verso, faz parte da poesia de Placer. Estrutura enriquecida por letras, espaços e palavras, tanto nos sentidos que lhes são próprios, quanto no que se refere ao aproveitamento de suas formas. Essa capacidade estética do autor é o que se pode chamar de o pulo do gato. O algo diferenciado que faz com que leigos como eu consigam compreender que se trata de uma obra de arte. Permite fruição.
            Às vezes linhas arquitetônicas parecem formar voleios e volteios, como a nossa Catedral, e tal visão sustenta que ali talvez haja profusão de bric-à-bracs. À entrada, verifica-se o engano. Lá dentro é claro e reluzente, de vitrais brilhantes e em cores magníficas. O que nos faz parar, olhar para cima e agradecer aos anjos que dali pendem. Espaço, cores e brilhos extraídos do simples e do singelo, porém de efeito contundente. Faz-nos, então, pensar que os bric-à-bracs estão é dentro de nós. Assim me sinto diante do poema   “h” em seu livro SIM, (1987):

UM reino
   Onde era o vegetal em toda exuberância o vegetal.

            Crescia a terra abruptas serranias
            A água em degraus precipitava.
            Corriam ventos no espaço por demais.
            Entre blocos erráticos fugiu
                               O bólido elástico de bela fera estriada.
           
            No alto
                        ardia enorme a estrela SOL,
            que descia a prumo a rebrilhar, rebrilhar e rebrilhar.

            Eu – visionário – media tudo isto:
            não havia tempo, havia mundo,
            e tropeçavam meus pés miúdas flores.

            E, para encerrar, trago um pequenino poema que me faz lembar os longos períodos de seca no  Planalto.
            Devaneios possíveis, no auge de período tão castigado pelo calor e falta de umidade no ar, mesmo que tenhamos, em contrapartida   – como ocorre nos agostos e setembros na Rua da Igrejinha: Quem nunca viu o nevar constante provocado pelo vento? –   a beleza dos floquinhos brancos e macios das paineiras floradas - Não deixamos de sofrer seus efeitos.
            Época de sonhar com o verde dos extensos gramados brasilienses. Sonhar com a praia, tão distante daqui.

A relva
      Mais que qualquer pássaro cantor
Compunham a panorâmica do dia.
De-longe chegavam as palavras, as palavras mesmas eram imagens, tudo se consumava poema, que o jovem poeta ia
Datilografando feito um seminarista em estado-de-graça.
(Tocou o telefone).
Ei-lo em estado-de-realidade. O pássaro voou! E o verde,
Que desconforto de ver que a relva verde não era relva,
                                                         [não é relva nem  é verde.

Apenas três pérolas de vasta obra. Apenas tentativa de falar o quanto me encanta essa construção, e o quanto ela me diz.
Bela Obra, belo XP.
                                                            Brasília, 29 de março de 2006.

*Publicado no Jornal da ANE – Associação Nacional dos Escritores. Ano XXVI, N.81, 2006.
** Informações para esta publicação. Xavier Placer foi escritor, professor de literatura, tradutor, ensaísta, colunista, romancista. Ganhador do Prêmio Afonso Arinos da ABL em 1946, com o livro Doze Histórias Curtas.

***J.J.Rivera é escritor, tradutor e Membro da Associação Nacional dos Escritores.

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